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28 de Outubro de 2020

Roomba, o aspirador de pó espião

Fabricante do robô de limpeza admite que pretende vender dados sobre as plantas das residências

Damiao Oliveira, Bacharel em Direito
Publicado por Damiao Oliveira
mês passado

Há uma máxima consagrada em Silicon Valley como orientação para a abertura de novos negócios: “Os dados são o novo petróleo”. A iRobot, fabricante do popular aspirador de pó inteligente Roomba, quer vender os dados que a máquina pode fornecer a terceiros sobre as plantas e a distribuição interna das residências.

A empresa, criada no MIT em 1990 com a finalidade inicial de produzir robôs que desativam bombas, admitiu que pretende compartilhar as informações sobre as residências de seus clientes com outros fabricantes, como o Google e a Apple. Em entrevista à agência Reuters, Colin Angle, fundador e presidente da empresa, revela os seus planos para comercializar os dados: “Existe todo um ecossistema de equipamentos e serviços que podem ser oferecidos às famílias quando você dispõe de uma planta bem realizada da casa e que o dono nos dá autorização para compartilhar”. Entre os produtos a que ele se refere estão lâmpadas, termostatos e câmeras de segurança.

O executivo afirma que a expectativa é começar a oferecer essa informação nos próximos anos. Por enquanto, a empresa conta com apenas uma integração tecnológica com terceiros. Dois dos seus modelos se conectam com o Alexa, assistente de voz da Amazon. Com isso, pode-se dar ordens do tipo: “Alexa, passe o aspirador na sala”. Uma utilização possível do conhecimento das plantas das residências poderia ser perguntar aos assistentes de voz –Siri, Alexa ou Google— “onde ficou o iPad”.

O Roomba foi o primeiro robô a entrar nas casas. O aspirador conseguiu ocupar espaço substituindo o aspirador de pó tradicional e é líder nesse mercado, com 68,5% em nível mundial e mais de 80% na Espanha. Ele pode ser programado para fazer a limpeza enquanto se está fora de casa; é amigável e cada vez mais inteligente. À medida que vai sendo usado, ele já reconhece os lugares e faz a limpeza seguindo padrões de modo a não deixar nenhum cantinho da casa com sujeira. Nem o tapete ou o carpete resistem a ele. Os modelos mais recentes –sinal dos tempos—incluem um aplicativo para que o aparelho seja conectado com o celular via wifi e possa, assim, ser controlado remotamente. São justamente esses modelos recentes que conseguem mapear a casa.

O primeiro modelo começou a ser vendido em 2002. Desde então, foram comercializados mais de 14 milhões de unidades. Em 2015, saiu o modelo 980, que custava 900 dólares (2.800 reais). Foi o primeiro a embutir a tecnologia de navegação capaz de armazenar uma planta e reconhecer os espaços. Para isso, ele conta com uma câmera com inclinação de 45 graus que registra o espaço em busca de desvios ou obstáculos. Depois disso, ela armazena esses dados e os analisa para poder executar melhor a limpeza --e, como acabamos de saber, a empresa poderá tirar proveito dessas informações. A iRobot afirma que nada será vendido sem a autorização do consumidor, mas não ficou claro se essa licença se dará de fato como parte do ato de compra do aparelho ou se o cliente terá de formalizar o seu consentimento de maneira mais explícita.

Guy Hoffman, professor da Universidade de Cornell especializado em robótica, afirmou à Reuters que o acesso a essas plantas representaria um grande avanço para a indústria de tecnologia do lar. “Hoje em dia ela funciona como um turista de Nova York que nunca sai do metrô. Existe muito mais informação sobre a cidade, mas ele perde o contexto daquilo que ocorre acima, na superfície, de cada estação”.

Segundo a IHS Markit, empresa especializada em análises financeiras, o mercado do lar inteligente atingiu um total de 9,8 bilhões de dólares (31,4 bilhões de reais) em 2016 apenas nos Estados Unidos, com uma projeção de crescimento de 60% em 2017. Apesar da enorme polêmica gerada entre os consumidores pela ideia de Angle, os investidores já lhe deram o sinal verde para seguir adiante, com uma alta de 21% em suas ações em Wall Street.

Fonte : El Pais

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